Alma de Jardineira

Quinta-feira, Julho 02, 2009

A hora da partida


A hora da partida soa quando
Escurecem o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.
A hora da partida soa quando
As árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Quarta-feira, Julho 01, 2009

De tudo quanto nós fomos

(....)

De tudo quanto nós fomos,
Apenas sei que sou triste.

António Botto

Segunda-feira, Junho 29, 2009

A palavra mágica



Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.

Vou procurá-la
a vida inteira no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra.


Carlos Drummond de Andrade

Domingo, Junho 28, 2009

os primeiros sinais do verão

A mão que entrega à tua
os primeiros sinais do verão
já não sabe o caminho - é como se
em vez de aprender fosse cada vez mais
e mais ignorante. Ou ignorar
fosse todo o saber.

Eugénio de Andrade

Sexta-feira, Junho 26, 2009

fonte ou brisa ou mar ou flor

Tu já tinhas um nome, e eu não sei
se eras fonte ou brisa ou mar ou flor,
Nos meus versos chamar-te-ei amor.

Eugénio de Andrade

Quinta-feira, Junho 25, 2009

Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos


Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos
detidos: hei-de partir quando as flores chegarem
à sua imagem. Este verão concentrado
em cada espelho. O próprio
movimento o entenebrece. Mas chamejam os lábios
dos animais. Deixarei as constelações panorâmicas destes dias
internos.


Vou morrer assim, arfando
entre o mar fotográfico
e côncavo
e as paredes com as pérolas afundadas. E a lua desencadeia nas grutas
o sangue que se agrava.


Herberto Helder

Segunda-feira, Junho 22, 2009

nestes jardins de abril em que respiras.


Há jardins invadidos de luar

Que vibram no silêncio como liras,
Segura o teu amor entre os teus dedos
Nestes jardins de abril em que respiras.

A vida não virá - as tuas mãos

Não podem colher noutras a doura

Das flores baloiçando ao vento leve.

Fosse o teu corpo feito de luar,
Fosses tu o jardim cheio de lagos,
As árvores em flor, a profusão
Da sua sombra negra nos caminhos.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Domingo, Junho 21, 2009

florscem do mesmo modo e têm o mesmo sorriso antigo

Pobres das flores nos canteiros dos jardins regulares.
Parecem ter medo da polícia...
Mas tão boas que florescem do mesmo modo
E têm o mesmo sorriso antigo
Que tiveram à solta para o primeiro olhar do primeiro homem
Que as viu aparecidas e lhes tocou levemente
Para ver se elas falavam....

Alberto Caeiro

Quinta-feira, Junho 18, 2009

o fio com que teces os dias sem memória

(....)
Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.

(...)

Eugénio de Andrade

Terça-feira, Junho 16, 2009

Pequenas coisas

Falar do trigo e não dizer
o joio. Percorrerem voo raso os campos
sem pousar
os pés no chão. Abrir
um fruto e sentir
no ar o cheiro
a alfazema. Pequenas coisas,
dirás, que nada
significam perante
esta outra, maior: dizer
o indizível. Ou esta:
entrar sem bússolana floresta e não perder
o rumo. Ou essa outra, maior
que todas e cujo
nome por precaução
omites. Que é preciso,
às vezes,
não acordar o silêncio.

Albano Martins

Domingo, Junho 14, 2009

outro jardim possível e perdido


Jardim em flor, jardim da impossessão,
transbordante de imagens mais informe,
Em ti se dissolveu o mundo enorme,
Carregado de amor e solidão.

A verdura das árvores ardia,
O vermelho das rosas transbordava,
Alucinado cada ser subia
Num tumulto em que tudo germinava.

A luz trazia em si a agitação
De paraísos, deuses e de infernos,
E os instantes em ti eram eternos
De possibilidades e suspensão.

Mas cada gesto em ti se quebrou denso
Dum gesto mais profundo em ti contido,
Pois trazias em ti suspenso
Outro jardim possível e perdido.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Sábado, Junho 13, 2009

o tempo onde a luz buscamos



O tempo a que sempre regressamos
e nos visita um instante

O tempo que depois destruímos
construímos e ali-
mentamos se nos
alimenta

O tempo onde a luz buscamos e
a morte sempre
encontramos

Casimiro de Brito

Sexta-feira, Junho 12, 2009

Sou uma pequena folha na felicidade do ar

Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas,
calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes.
Sequências de convergências e divergências,
ordem e dispersões, transparência de estruturas,
pausas de areia e de água, fábulas minúsculas.

Geometria que respira errante e ritmada,
varandas verdes, direcções de primavera,
ramos em que se regressa ao espaço azul,
curvas vagarosas, pulsações de uma ordem
composta pelo vento em sinuosas palmas.

Um murmúrio de omissões, um cântico do ócio.
Eu vou contigo, voz silenciosa, voz serena.
Sou uma pequena folha na felicidade do ar.
Durmo desperto, sigo estes meandros volúveis.
É aqui, é aqui que se renova a luz.

António Ramos Rosa

Quarta-feira, Junho 10, 2009

uma ardente confusão de estrela e musgo


Esta linguagem é pura. No meio está uma fogueira
e a eternidade das mãos.
Esta linguagem é colocada e extrema e cobre, com suas
lâmpadas, todas as coisas.
As coisas que são uma só no plural dos nomes.
- E nós estamos dentro, subtis, e tensos
na música.
(....)
Dizem: ele é uma palavra.
E chega o verão, e eu sou exactamente uma Palavra.
- Porque me amam até se despedaçarem todas as portas,
e por detrás de tudo, num lugar muito puro,
todas as coisas se unirem numa espécie de forte silêncio.

Toda a água descendo é fria, fria.
Os veios que escorrem são a imensa lembrança. Os velozes
sóis que se quebram entre os dedos,
as pedras caídas sobre as partes mais trêmulas
da carne,
tudo o que é úmido, e quente, e fecundo,
e terrivelmente belo
- não é nada que se diga com um nome.
Sou eu, uma ardente confusão de estrela e musgo.
(...)
Há gente assim, tão pura.
(...)

Herberto Helder

Domingo, Junho 07, 2009

as minúsculas portas da alegria

Uma a uma a noite abria
à luz matinal das rolas
as minúsculas portas da alegria.

Eugénio de Andrade

Terça-feira, Junho 02, 2009

onde a luz é feliz e se demora

Faz uma chave, mesmo pequena,
entra em casa.
Consente na doçura, tem dó
da matéria dos sonhos e das aves.

Invoca o fogo, a claridade, a música
dos flancos.
Não digas pedra, diz janela.
Não sejas como a sombra.

Diz homem, diz criança, diz estrela.
Repete as sílabas
onde a luz é feliz e se demora.

Volta a dizer: homem, mulher, criança.
Onde a beleza é mais nova.

Eugénio de Andrade

Segunda-feira, Junho 01, 2009

quando eu bati à tua porta

(...)
Era de noite quando eu bati à tua porta
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir
e não me conheceste.
Era de noite
são mil e umas
as noites em que bato à tua porta
e tu vens abrir
e não me reconheces
porque eu jamais bato à tua porta.
Contudo
quando eu batia à tua porta
e tu vieste abrir
os teus olhos de repente
viram-me
pela primeira vez
como sempre de cada vez é a primeira
a derradeira
instância do momento de eu surgir
e tu veres-me.
Era de noite quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir
e viste-me
como um náufrago sussurrando qualquer coisa
que ninguém compreendeu.
Mas era de noite
e por isso
tu soubeste que era eu
e vieste abrir-te
na escuridão da tua casa.
(...)

São mil e umas
as noites em que não bato à tua porta
e vens abrir-me

Ana Hatherly

Domingo, Maio 31, 2009

e um pássaro a morrer

(.....)

E nada disto é céu nem é inferno.
Tristeza, só tristeza. Sol de Inverno,
sem uma flor a abrir na minha mão,

sem um búzio a cantar ao meu ouvido.
Só tristeza, um silêncio desmedido
e um pássaro a morrer: meu coração.

Fernanda de Castro,

Sábado, Maio 30, 2009

Nos faltamos, amor, y nos morimos

(...)
Te digo que estoy solo y que me faltas.
Nos faltamos, amor, y nos morimos
y nada haremos ya sino morirnos.
Esto lo sé, amor, esto sabemos.
Hoy y mañana, así, y cuando estemos
en nuestros brazos simples y cansados,
me faltarás, amor, nos faltaremos.

Jaime Sabines

Sexta-feira, Maio 29, 2009

num sítio tão frágil como o mundo

Terror de te amar num sítio tao frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição

Onde tudo nos quebra e emudece

Onde tudo nos mente e nos separa.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Quinta-feira, Maio 28, 2009

Às vezes as coisas dentro de nós



O que nos chama para dentro de nós mesmos
é uma vaga de luz, um pavio, uma sombra incerta.
Qualquer coisa que nos muda a escala do olhar
e nos torna piedosos, como quem já tem fé.
Nós que tivemos a vagarosa alegria repartida
pelo movimento, pela forma, pelo nome,
voltamos ao zero irradiante, ao ver
o que foi grande, o que foi pequeno, aliás
o que não tem tamanho, mas está agora
engrandecido dentro do novo olhar.

Fiama Hasse Pais Brandão

Quarta-feira, Maio 27, 2009

há em toda a beleza uma amargura


Há em toda a beleza uma amargura
secreta e confundida que é latente
ambígua indecifrável duplamente
oculta a si e a quem na olhar obscura


Walter Benjamin

Terça-feira, Maio 26, 2009

estar só é estar no íntimo do mundo

Por vezes cada objecto se ilumina
do que no passar é pausa íntima
entre sons minuciosos que inclinam
a atenção para uma cavidade mínima
E estar assim tão breve e tão profundo
como no silêncio de uma planta
é estar no fundo do tempo ou no seu ápice
ou na alvura de um sono que nos dá
a cintilante substância do sítio
O mundo inteiro assim cabe num limbo
e é como um eco límpido e uma folha de sombra
que no vagar ondeia entre minúsculas luzes
E é astro imediato de um lúcido sono
fluvial e um núbil eclipse
em que estar só é estar no íntimo do mundo

António Ramos Rosa

Segunda-feira, Maio 25, 2009

En las hojas del tiempo

(...)
¿Qué fácil es la ausencia?

En las hojas del tiempo
esa gota del día
resbala, tiembla.

Jaime Sabines

Domingo, Maio 24, 2009

Louvor do esquecimento


(....)

Como se levantaria, sem o esquecimento

Da noite que apaga os rastos, o homem de manhã?

Como é que o que foi espancado seis vezes

Se ergueria do chão à sétima

Pra lavrar o pedregal, pra voar

Ao céu perigoso?


A fraqueza da memória

dá Fortaleza aos homens.


Bertol Brecht

Sábado, Maio 23, 2009

de olhos deslumbrados

Caminharemos de olhos deslumbrados
E braços estendidos
E nos lábios incertos levaremos
O gosto a sol e a sangue dos sentidos.

Ary dos Santos

Sexta-feira, Maio 22, 2009

A erva cresce ao redor de mim


(...)
A erva cresce em redor de mim,
os limões ficaram ressequidos sobre
a toalha bordada, num canto da mesa.
O amor tudo mata quando morre,
detendo no seu movimento elementar,
a máquina que ilumina o coração do dia.

José Jorge Letria

Quinta-feira, Maio 21, 2009

para disfarçar a natureza

As flores
são formas
de que a pintura se serve
para disfarçar
a natureza. Por isso
é que
no perfil
duma flor
está também pintado
o seu perfume.

Albano Martins

Quarta-feira, Maio 20, 2009

Foi para ti que desfolhei a chuva

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre
(...)

Mia Couto

Terça-feira, Maio 19, 2009

a noite onde cresce o teu corpo azul


Adulta é a noite onde cresce
o teu corpo azul. A claridade
que se dá em troca dos meus ombros
cansados. Reflexos coloridos.
Amei o amor. Amei-te meu amor sobre ervas
orvalhadas. Não eras tu porém
o fim dessa estrada
sem fim. Canto apenas (enquanto os álamos
amadurecem) a transparência, o caminho. A noite
por ti despida. Lume e perfume
do sol. Íntimo rumor do mundo.

Casimiro de Brito, in "Solidão Imperfeita"

Segunda-feira, Maio 18, 2009

Chamar a Si Todo o Céu com um Sorriso


que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas
aves que são os segredos da vida
o que quer que cantem é melhor do que conhecer
e se os homens não as ouvem estão velhos

que o meu pensamento caminhe pelo faminto
e destemido e sedento e servil
e mesmo que seja domingo que eu me engane
pois sempre que os homens têm razão não são jovens

e que eu não faça nada de útil
e te ame muito mais do que verdadeiramente
nunca houve ninguém tão louco que não conseguisse
chamar a si todo o céu com um sorriso

E. E. Cummings

Domingo, Maio 17, 2009

Poema da flor proibida


Por detrás de cada flor
há um homem de chapéu de coco e sobrolho carregado.

Podia estar à frente ou estar ao lado,
mas não, está colocado
exactamente por detrás da flor.
Também não está escondido nem dissimulado,
está dignamente especado
por detrás da flor.

Abro as narinas para respirar
o perfume da flor,
não de repente
(é claro) mas devagar,
a pouco e pouco,
com os olhos postos no chapéu de coco.

Ele ama-me. Defende-me com os seus carinhos,
protege-me com o seu amor.
Ele sabe que a flor pode ter espinhos,
ou tem mesmo,
ou já teve,
ou pode vir a ter,
e fica triste se me vê sofrer.

Transmito um pensamento à flor
sem mover a cabeça e sem a olhar
De repente,
como um cão cínico arreganho o dente
e engulo-a sem mastigar.

António Gedeão

Sexta-feira, Maio 15, 2009

soñando rosas e inventando estrellas


Te quiero, amor, amor absurdamente,
tontamente, perdido, iluminado,
soñando rosas e inventando estrellas
y diciéndote adiós yendo a tu lado.

Jaime Sabines

Quinta-feira, Maio 14, 2009

Inventar a cor primeiro das laranjas

Inventar a cor primeiro das laranjas
depois o sol escorrendo dos lábios
só depois o trevo só depois a neve.

Eugénio de Andrade

Terça-feira, Maio 12, 2009

a infância antiga

(....)

Desgarrada era a voz das primaveras

Buscarei como oferta a infância antiga
Que mesmo tão distante e tão perdida
Guarda em si a semente que renasce


Sophia de Mello Breyner Andresen

Domingo, Maio 10, 2009

e os olhos água

Onde passou o vento
São altas as ervas,
e os olhos água
só de olhar para elas.

Eugénio de Andrade

Sexta-feira, Maio 08, 2009

Poema de La Despedida


Te digo adiós, y acaso te quiero todavía.
Quizá no he de olvidarte, pero te digo adiós.
No sé si me quisiste... No sé si te quería...
O tal vez nos quisimos demasiado los dos.

Este cariño triste, y apasionado, y loco,
me lo sembré en el alma para quererte a ti.
No sé si te amé mucho... no sé si te amé poco;
pero sí sé que nunca volveré a amar así.

Me queda tu sonrisa dormida en mi recuerdo,
y el corazón me dice que no te olvidaré;
pero, al quedarme solo, sabiendo que te pierdo,
tal vez empiezo a amarte como jamás te amé.

Te digo adiós, y acaso, con esta despedida,
mi más hermoso sueño muere dentro de mí...
Pero te digo adiós, para toda la vida,
aunque toda la vida siga pensando en ti.


Jose Angel Buesa

Quarta-feira, Maio 06, 2009

ironias dos Deuses desleais


Foi bonito
O meu sonho de amor.
Floriram em redor
Todos os campos em pousio.
Um sol de Abril brilhou em pleno estio,
Lavado e promissor.
Só que não houve frutos
Dessa primavera.
A vida disse que era
Tarde demais.
E que as paixões tardias
São ironias
Dos deuses desleais.

Miguel Torga, in 'Diário XV'

Terça-feira, Maio 05, 2009

Aquestas noites tan longas


Aquestas noites tan longas
que Deus fez en grave día
por mí, por que as non dormio
e por que as non fazía
no tempo que meu amigo
soía falar comigo?

Porque as fez Deus tan grandes
non posso eu dormir, coitada,
e, de como son sobejas,
quisera eu outra vegada
no tempo que meu amigo
soía falar comigo.

Porque as Deus fez tan grandes
sen mesura desiguaes
e as eu dormir non posso,
porque as non fez ataes
no tempo que meu amigo
soía falar comigo?

Cantiga d'Amigo por Juião Bolseiro

Sábado, Maio 02, 2009

Foi para ti que criei as rosas

Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei às romãs a cor do lume.

Eugénio de Andrade

Sexta-feira, Maio 01, 2009

abrirás nas mãos de quem te espera

Olhos postos na terra, tu virás
no ritmo da própria primavera,
e como as flores e os animais
abrirás nas mãos de quem te espera.

Eugénio de Andrade

Quarta-feira, Abril 29, 2009

Canção grata


Por tudo o que me deste: — Inquietação, cuidado,
(Um pouco de ternura? É certo, mas tão pouco!)
Noites de insónia, pelas ruas, como um louco...
Obrigado, obrigado!

Por aquela tão doce e tão breve ilusão.
(Embora nunca mais, depois que a vi desfeita,
Eu volte a ser quem fui), sem ironia: aceita
A minha gratidão!

Que bem me faz, agora, o mal que me fizeste!
— Mais forte, mais sereno, e livre, e descuidado...
Sem ironia, amor: — Obrigado, obrigado
Por tudo o que me deste!

Carlos Queiroz (1907-1949)

Terça-feira, Abril 28, 2009

como a água que vem da montanha



Meus pensamentos são nómadas
e vagarosos
como a água que vem da montanha
e não sabe nada
do coração dos homens. O meu, por exemplo,
tem a leveza do vento
e corre para casa como se fosse
um cão que precede
os passos do dono.

Casimiro de Brito

Segunda-feira, Abril 27, 2009

vivo na delícia nua da inocência



Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.

António Ramos Rosa, in "Volante Verde"

Domingo, Abril 26, 2009

secam folhas nas árvores dos dedos


Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.
E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo.

Natália Correia

Sábado, Abril 25, 2009

incapazes de ser flor



Somos folhas breves onde dormem
aves de sombra e solidão.
Somos só folhas e o seu rumor.
Inseguros, incapazes de ser flor,
até a brisa nos perturba e faz tremer.
Por isso a cada gesto que fazemos
cada ave se transforma noutro ser.

Eugénio de Andrade

Sexta-feira, Abril 24, 2009

quando te perguntarem pelas minúsculas sementes



Que fizeste das palavras?
Que contas darás tu dessas vogais
de um azul tão apaziguado?

E das consoantes, que lhes dirás,
ardendo entre o fulgor
das laranjas e o sol dos cavalos?

Que lhes dirás, quando
te perguntarem pelas minúsculas
sementes que te confiaram?

Eugénio de Andrade

Quinta-feira, Abril 23, 2009

Sem regresso nem resposta



Será possível que nada se cumprisse?
Que o roseiral a brisa as folhas de hera
Fossem como palavras sem sentido
- Que nada sejam senão teu rosto ido
Sem regresso nem resposta - só perdido

Sophia de Mello Breyner Andresen

Terça-feira, Abril 21, 2009

pondo rosas nos teus dedos descuidados



Os anjos que prometes são apenas
o rosto triste dos dias desolados.
Eu não prometo nada, sou alegria.
Aceito os anjos nos beijos que me dás
pondo rosas nos teus dedos descuidados.

Eugénio de Andrade

Domingo, Abril 19, 2009

nos rodeamos de amigos y fantasmas


Sigue el mundo su paso, rueda el tiempo
y van y vienen máscaras.
Amanece el dolor un día tras otro,
nos rodeamos de amigos y fantasmas,
parece a veces que un alambre estira
la sangre, que una flor estalla,
que el corazón da frutas, y el cansancio
canta.

Jaime Sabines

Sexta-feira, Abril 17, 2009

As flores do campo da minha infância


As flores do campo da minha infância, não as terei eternamente,
Em outra maneira de ser?
Perderei para sempre os afectos que tive, e até os afectos que pensei ter?
Há algum que tenha a chave da porta do ser, que não tem porta,
E me possa abrir com razões a inteligência do mundo?

Álvaro de Campos

Quarta-feira, Abril 15, 2009

não descubro o segredo


Nem o Tempo tem tempo
para sondar as trevas
 
deste rio correndo
entre a pele e a pele
 
Nem o Tempo tem tempo
nem as trevas dão tréguas
 
Não descubro o segredo
que o teu corpo segrega
 
 
 
David Mourão Ferreira


Terça-feira, Abril 14, 2009

uma brusca maneira de florir



Aqui durante a noite ouve-se o mar
e as palavras deixam-se despir;
como o pessegueiro mal abril começa
tenho uma brusca maneira de florir.

Eugénio de Andrade

Quarta-feira, Abril 08, 2009

Como se não houvera bosque mais secreto

Como se não houvera
bosque mais secreto

como se as nascentes
fossem só ardor,

como se o teu corpo
fora a vida toda,

o deseja hesita
em ser espada ou flor.


Eugénio de Andrade

Domingo, Abril 05, 2009

tu sabes

Quietos fazemos as grandes viagens
tu sabes
só a alma convive com as paragens
estranhas
(...)

José Tolentino Mendonça

Domingo, Março 29, 2009

Dizer



O mistério cintila no mistério.
Dizer e não dizer.
Procurarei o oculto
o meu reino não é para se ver.

Manuel Alegre

Segunda-feira, Março 23, 2009

dentro da casa abandonada que é o teu coração



(...)
e o teu coração dizia

fecha as janelas

porque de fora vigiavam passos e rostos se aproximavam para
entrar
porque, estando lá dentro, ainda queria entrar mais e mais, passar
o mundo podre de casa antiga,
o poste junto à vedação construída com arbustos,
entrar ainda mais, mais ainda, para um lugar mais longe,
dentro da casa abandonada que é o teu coração

e, quando cheguei lá dentro, dei por mim
que me olhavas de fora da vedação
(nem tu, no coração, havias chegado tão longe)
(.....)

Laura Moniz, in "Ilha 5"

Quinta-feira, Março 19, 2009

Eternidad


No importa cuántas veces

hayas perdido la inocencia

siempre vendrá a ti un hombre

que invoque la magia

y la recupere para ti

Luego

por la maravilla de la inercia

te deshojará pétalo a pétalo

dejándote desnuda

liviana

Lista para la próxima vez

para el próximo milagro

Eva Durán

Terça-feira, Março 17, 2009

o que não fomos


é tudo o que não foste
o que não fomos
que me atravanca os dias

o espelho em que me vejo empalidece
como um retrato antigo

sinto-me longe

é quinta feira
Março
o tempo não levanta

de resto aprendo que a monotonia
é apenas isto
o regressar contínuo
ao vazio das coisas


Luís Amorim de Sousa

Segunda-feira, Março 16, 2009

ao passar o vento


Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.


Eugénio de Andrade

Terça-feira, Março 10, 2009

o som da música e mais nada


Que seja o fim. Que Deus escreva agora um zero
Defronte do meu nome. E fique, então, cerrada
A porta... Mas se ainda perguntar se quero
Alguma coisa mais? Só música e mais nada.

Que interessa o que vai por esse mundo? As mansas
Nuvens corram no céu da minha vida, e fechem
Por completo o horizonte, e seja o fim, mas deixem
Ouvir, ouvir o riso de oiro das crianças;

E ver, e ver poisar, aos bandos, nos beirais
As pombas, ou riscar violentamente o espaço
Uma andorinha. Assim, que mais eu quero? O abraço
Que alguém me der será... será talvez demais;

E ver, e ver ainda abrir-se lá nos frisos
De vasos uma outra delicada flor.
O arco-íris também... Aves e flores, risos
De crianças... E sons de música ao redor.

Fechado guardarei comigo a sete chaves
O efémero da vida... o que traz a alvorada
E a noite depois leva... Risos, flores, aves,
O arco-íris, o som da música e mais nada.

Cabral do Nascimento
(in "Fábulas", s.d.,Portugália Editora,Lisboa)

Domingo, Março 08, 2009

Caminhos

Lado a lado, caminhos diferentes.
O importante não é cruzarem-se.
O importante é seguirem na mesma direcção.
Com pontes aqui e ali. Nos locais essenciais.

Sexta-feira, Março 06, 2009

não sei - não sei dizer


Não perguntes, não sei — não sei dizer:
Um grande amor só se avalia bem
Depois de se perder.

Terça-feira, Março 03, 2009

a vida presente

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
(...)
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Carlos Drummond de Andrade

Domingo, Março 01, 2009

o segredo da terra cresce em cada olhar


A luz irrompe em lugares estranhos,
nos espinhos do pensamento onde o seu aroma paira sob a chuva;
quando a lógica morre,
o segredo da terra cresce em cada olhar
e o sangue precipita-se no sol;
sobre os campos mais desolados, detém-se o amanhecer.

Dylan Thomas


Sábado, Fevereiro 28, 2009

uma pequena folha



Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

Pablo Neruda

Segunda-feira, Fevereiro 23, 2009

Troquei o ceú azul pelos teus olhos




Nomeei-te no meio dos meus sonhos
chamei por ti na minha solidão
troquei o céu azul pelos teus olhos
e o meu sólido chão pelo teu amor

Ruy Belo

Terça-feira, Fevereiro 17, 2009

LA CASA DEL SILENCIO



LA CASA dei silencio

se yergue en un rincón de la montaña,

con el capuz de tejas carcomido.

Y parece tan dócil

que apenas se conmueve con el ruido

de algún árbol cercano, donde sueña

el amoroso conclave de un nido.


Tal vez nadie la habita

ni la quiere,

y acaso nunca la vivieron hombres;

pero su lento corazón palpita

con profundo latir de resignado,

cuando el rumor la hiere

y la sangra dei trémulo costado.


Imagino, en la casa dei silencio,

un patio luminoso, decorado

por la hierba que roe las canales

y un muro despintado

ai caer de las lluvias torrenciales.


Y en las noches azules,

la pienso conturbada si adivina

um balbucir de luz en sus escaños,

y la oigo verter con un ruido

ya casi imperceptible, contenido,

sul loro paternal de tres mil años.

JOSÉ GOROSTIZA (1925)

Segunda-feira, Fevereiro 16, 2009

hacia dónde va mi corazón


No me digan ustedes en dónde están mis ojos,
pregunten hacia dónde va mi corazón.

Jaime Sabines

Quinta-feira, Fevereiro 12, 2009

talvez então me digas quem é Deus



Onda a onda o desejo no
teu rosto de mágoas e de torres
levemente descaídas para
onde não sei se nasces ou se morres
quando os meus dedos cítara a cítara
tocam a música do teu corpo nu
lá onde os teus mistérios serão meus
e chegarei às margens onde tu
talvez então me digas quem é Deus.

Manuel Alegre

Quarta-feira, Fevereiro 11, 2009

Todo se hace en silencio

YO NO LO SÉ DE CIERTO, pero supongo
que una mujer y un hombre
algún día se quieren,
se van quedando solos poco a poco,
algo en su corazón les dice que están solos,
solos sobre la tierra se penetran,
se van matando el uno al otro.

Todo se hace en silencio. Como
se hace la luz dentro del ojo.
El amor une cuerpos.
En silencio se van llenando el uno al otro.

Cualquier día despiertan, sobre brazos:
piensan entonces que lo saben todo.
Se ven desnudos y lo saben todo.

(Yo no lo sé de cierto, pero lo supongo.)

JAIME SABINES

Terça-feira, Fevereiro 10, 2009

As mãos pressentem



As mãos pressentem a leveza rubra do lume
repetem gestos semelhantes a corolas de flores
voos de pássaro ferido no marulho da alba
ou ficam assim azuis
queimadas pela secular idade desta luz
encalhada como um barco nos confins do olhar

Al Berto

Segunda-feira, Fevereiro 09, 2009

E tudo era possíel era só querer

Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio e era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer

Ruy Belo

Do mar que cantava só para mim



As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só para mim.

Sophia de Mello Breyner Andressen


Domingo, Fevereiro 08, 2009

pescar luz caída


Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.

Pablo Neruda (Últimos Poemas)

Sábado, Fevereiro 07, 2009

intervalo



O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto, é a matéria.

Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.

António Gedeão

Quinta-feira, Fevereiro 05, 2009

no breve espaço de beijar



O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.

O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.

(Carlos Drummond de Andrade in “Amar se Aprende Amando”)

Quarta-feira, Fevereiro 04, 2009

Porque eu desejo impossivelmente o possível


Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

Álvaro de Campos

Terça-feira, Fevereiro 03, 2009

Inocência


Hei-de morrer inocente

exactamente
como nasci.
Sem nunca ter descoberto
o que há de falso ou de certo
no que vi.

António Gedeão

Segunda-feira, Fevereiro 02, 2009

dois pares e meio de asas

Nós temos cinco sentidos:
são dois pares e meio de asas.

- Como quereis o equilíbrio?


David Mourão-Ferreira

Domingo, Fevereiro 01, 2009

Todo o nada que és é teu


Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.

Fernando Pessoa, Janeiro de 1931




Sábado, Janeiro 31, 2009

O que é bonito neste mundo


Confiança

O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova...

Miguel Torga

Quinta-feira, Janeiro 22, 2009

AMOR



quando os instantes de manhã se acumulam nas
paredes da casa, eu rasgo as páginas onde te escrevo,
porque sei que tudo será desnecessário, tudo será
frágil. quando imagino o sol que não sei se poderei ver,
esqueço as paredes e,

com tanta força,

quero que sejas feliz.


José Luís Peixoto

Quarta-feira, Janeiro 21, 2009

o segredo da vida

possa o meu coração estar sempre aberto às pequenas
dores das plantas míseras
que ao florescer revelam o segredo da vida
(...)

Carlos Nogueira Fino

Terça-feira, Janeiro 20, 2009

qualquer grandiosidade



Se paro no silêncio
não fico nunca imóvel

há no ar perfumado
a doçura de uma fala longínqua
activa e demorada
uma imensa liturgia se agita e volve
à certeza de um grande facto desejado

qualquer grandiosidade
qualquer alta parada harmoniosa
qualquer fruto grave invulnerado
e manso

(...)

Irene Lucília Andrade

Segunda-feira, Janeiro 19, 2009

e por detrás das árvores

(...)
as palavras
ou uns passos súbitos
batendo ao compasso febril do coração
esmagando os medos
do silêncio

então descobrimos: o choro é uma certeza
não rasga horizontes
por acaso
nem os rios são fáceis de esconder.

acontecia sempre o mesmo
e por detrás das árvores rostos caíam mortos
para que o mundo não soubesse de tudo.

(...)

José António Gonçalves

Sábado, Janeiro 17, 2009

nas tuas folhas de árvore sem nome

(....)

"E pronto, violeta, essa tua voz está nas tuas
páginas, nas tuas folhas de árvore sem nome.
Talvez esse caminho que atravessa as ruas
nos leve a um silêncio ainda mais pesado, surdo."

José Viale Moutinho

Quinta-feira, Janeiro 15, 2009

a diferença

"A diferença entre um profeta e um poeta é que o primeiro vive aquilo que ensina.
O poeta não o faz; ele pode escrever versos magníficos sobre o amor e, mesmo assim, continuar sem ser amado. Quando uma pessoa aceita não ser amada acaba por se tornar em alguém impossível de se amar".

Kahlil Gibran, in "Cartas de Amor do porfeta"

Terça-feira, Janeiro 13, 2009

Era uma árvore

Era uma árvore sem nome onde os morcegos e mochos,
ainda outros bichos se aconchegavam. E aconchegava
a minha alegria. Anoitecendo (não em todas as noites)

a um corpo se assemelhava pois se despia. (...)

Ivo Machado

Segunda-feira, Janeiro 12, 2009

tenho o nome de uma flor

Tenho o nome de uma flor
quando me chamas.
Quando me tocas,
nem eu sei
se sou água, rapariga
ou algum pomar que atravessei.

Eugénio de Andrade

Sábado, Janeiro 03, 2009

Desejos


Coisas que gostaria de fazer em 2009:

Sonhar ainda mais, ler ainda mais, escrever mais, aprender a dançar, plantar um jardim, sorrir mais, caminhar muitas vezes à beira-mar, fechar mais vezes os olhos para ouvir a chuva, continuar a acreditar nas pessoas apesar de, tirar muitas fotografias, nunca desistir desta minha estranha maneira de ser feliz, viajar, aprender a nadar, dormir bem e estar bem acordada para tudo o que está à minha volta.

Casa

Uma casa parecida com o meu sonho de casa.
Com histórias para contar
e um jardim por inventar

Sexta-feira, Dezembro 26, 2008

Balcão

Um lugar mágico.

Um lugar
onde
apetece ser feliz

Recordação

Recordo o Verão apenas pelo prazer de recordar.

O Inverno deixa as coisas todas novas. Lavadas.

Quarta-feira, Dezembro 17, 2008

A noite...

(...)
A noite ao longe deve ser isso a noite
das pequenas lanças não dirias nada
ou só dirias "Não eram lanças eram folhas"
no chão caíam é certo folhas seriam
um riso que estala antes fora um pássaro
deve ser isso na sombra antes fora a noite.
(...)

Eugénio de Andrade

Domingo, Dezembro 14, 2008

Amarras

As piores de todas
SÃO
as do passado

Quarta-feira, Dezembro 10, 2008

Jantar de bloguistas madeirenses

Está a ser organizado um jantar de bloguistas madeirense.
Será no dia 22 de Dezembro, em local ainda a decidir. As inscrições podem ser feitas através do blogue http://madeiraminhavida.blogspot.com

Sexta-feira, Dezembro 05, 2008

Súplica




Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

Miguel Torga

Quinta-feira, Novembro 27, 2008

Nuvens correndo num rio



Nuvens correndo num rio
Quem sabe onde vão parar?
Fantasma do meu navio
Não corras, vai devagar!

Vais por caminhos de bruma
Que são caminhos de olvido.
Não queiras, ó meu navio,
Ser um navio perdido.

Sonhos içados ao vento
Querem estrelas varejar!
Velas do meu pensamento
Aonde me quereis levar?

Não corras, ó meu navio
Navega mais devagar,
Que nuvens correndo em rio,
Quem sabe onde vão parar?

Que este destino em que venho
É uma troça tão triste;
Um navio que não tenho
Num rio que não existe.

Natália Correia

Os anjos que conheço são de erva e de silêncio



Os anjos que conheço são de erva e de silêncio
nalgum jardim de tarde. Mas quais os mais ardentes?
(....)

António Ramos Rosa

Quinta-feira, Novembro 20, 2008

cresceu-me uma pérola no coração



(...)
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)
(...)

Al Berto

E ao anoitecer



e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia


Al Berto

Quarta-feira, Novembro 19, 2008

Amo as horas sombrias do meu ser



Amo as horas sombrias do meu ser
em que os meus sentidos se aprofundam;
nelas encontrei, como em velhas cartas,
o meu dia a dia já vivido,
ultrapassado e vasto como uma lenda.


Elas me ensinam que possuo espaço
p´ra uma intemporal segunda vida.
E por vezes sou como a árvore
que madura e rumorosa, sobre uma campa
cumpre o sonho que a criança de outrora
(abraçada por suas cálidas raízes)
perdeu em tristezas e canções.


Rainer Maria Rilke . Tradução de Ana Haterly

Breve encontro

Este é o amor das palavras demoradas
Moradas habitadas
Nelas mora
Em memória e demora
O nosso breve encontro com a vida


Sophia de Mello Breyner Andresen
in "O nome das coisas"

Domingo, Novembro 09, 2008

Outono

As cores, os cheiros, os sabores.
No Outono
TUDO
é especial.

Quarta-feira, Novembro 05, 2008

Exposição


Convido todos os leitores a visitarem a exposição de fotografia que está patente na Galeria da Casa do Povo do Caniço até 14 de Novembro.
Em exposição estão nove trabalhos meus, nove do Roquelino Ornelas e nove do Virgílio Nóbrega. Apareçam. Durante a semana, a galeria está aberta das 16h às 18 h.

Terça-feira, Outubro 28, 2008

Ideias e razões



Eu tenho ideias e razões,
Conheço a cor dos argumentos
E nunca chego aos corações.

Fernando Pessoa, 1932

Domingo, Outubro 26, 2008

Saudades IV

De Guimarães. Numa manhã de Agosto.

Segunda-feira, Outubro 20, 2008

Saudades lll

De Tomar.
Numa tarde de chuva.

Quarta-feira, Outubro 08, 2008

Saudades II

Saudades de Londres
no início da Primavera

Saudades

Quinta-feira, Outubro 02, 2008

Saudades




De súbito, sem explicação
encho-me de saudades de lugares
por onde passei

Hoje tenho saudades de Nova Iorque no Inverno

Terça-feira, Setembro 30, 2008

A propósito de gaivotas




A PROPÓSITO DE GAIVOTAS

para Lília Mata



No silêncio das manhãs respiro o voo
das gaivotas no esforço lento do bater de asas

Suave é o gosto da maresia
embebido nas gotas de sol sobre as pedras

Olhamos o horizonte na espera dos barcos
e sorrimos às crianças que passam devagar à superfície
das nossas memórias familiares

E quando damos por nós
o dia esfumou-se-nos entre os dedos
como resíduos que para sempre nos confortarão
no seio dos nossos inconsequentes quereres
às vezes confundidos no universo do tempo
com as obscuras vozes mascaradas

de medos

José António Gonçalves
(inédito, 2003)

Domingo, Setembro 28, 2008

Açucenas

Açucenas
que transformam o Outono na minha estação
Preferida

Quarta-feira, Setembro 24, 2008

quando

quando o tempo nos esmaga com a sua asa
apetece ser tudo
apetece ser nada

Segunda-feira, Setembro 22, 2008

Estribilhos de um dia de Verão

1
Um nó de luz ou uma lágrima:
nada mais era quando despertava

2
Sabor de água, puro sabor
de ser matinal até doer.

3
Sabor de ser
ardor de florir,
rumor de amanhecer.

4
Ser
da neve ao fogo um só ardor.

5
Um só fluir, um só fulgor.


Eugénio de Andrade

Sexta-feira, Setembro 19, 2008

O mar começa onde as crianças crescem

O mar começa onde as crianças crescem
mas tenho ainda de procurar a pedra
próxima do silêncio onde dormir.

Eugénio de Andrade

Quinta-feira, Setembro 18, 2008

Abraço

Num abraço apertado devoram o estranho momento do adeus

Quarta-feira, Setembro 17, 2008

Roupa estendida

Roupa estendida numa viela
E tantas vidas - escondidas - por detrás dela

Domingo, Setembro 14, 2008

No meio do caminho


No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra.
Tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Carlos Drummond de Andrade

Sábado, Setembro 13, 2008

tive um coração, perdi-o



tive um coração, perdi-o
ai, quem mo dera encontra
prreso no fundo do rio
ou afogado no mar

amália rodrigues,
in "Gostava de ser quem era"

Segunda-feira, Setembro 01, 2008

Paragem

Para (re)pensar a vida

Para analisar o mapa dos sonhos
devagar
Para encontrar um rumo

Quinta-feira, Agosto 28, 2008

uma pequena esperança



éramos as crianças e a água. éramos as árvores.
as folhas das árvores, uma aragem, os pássaros a voar na nossa respiração
éramos as manhãs e nós a sofrê-las, éramos uma pequena esperança.

José Luís Peixoto
in "A criança em ruínas"

Segunda-feira, Agosto 25, 2008

casa

Porto Santo


Sempre. Um imenso e estranho fascínio por
casas
sem idade.

(Mesmo sabendo que) as paredes
das verdadeiras casas são

os corações onde habitamos

Segunda-feira, Agosto 18, 2008

Time...

Time's a strange fellow;
more he gives than takes
(and he takes it all)

e. e. cummings

Quinta-feira, Agosto 14, 2008

rumor de chuva branca

Palácio da Pena, Sintra


A pele porosa do silêncio
agora que a noite sangra nos pulsos
traz-me o teu rumor de chuva branca
(...)

Eugénio de Andrade

Domingo, Agosto 10, 2008

Às vezes

A manhã às vezes fica muito longe.
E o dia. Fica muito longe.

Só a noite e as sombras e o silêncio e o medo
Têm tamanhos que não alcanço.

Sábado, Agosto 09, 2008

à janela dos dias


Choras, e nem eu posso
mais do que lágrimas, coisas frias,
sobre as tuas mãos abandonadas
à janela dos dias.

Alta tristeza de cabelos de água,
é no meu rosto que se demora
- meu coração
escreve na noite como quem chora.


Eugénio de Andrade

Quinta-feira, Agosto 07, 2008

Ondas

Esmoriz, Julho 2008

Nenhuma onda é igual
à quem veio antes e à que virá a seguir.

Nada se repete da mesma maneira.

Quarta-feira, Agosto 06, 2008

Partidas

Às vezes - algumas ou muitas - Às vezes
parece que
um qualquer estranho ser - sem nome, sem forma, sem lugar -
se diverte a pregar-nos partidas
- tantas ironias tantas -
e depois fica a rir-se, a rebolar-se de tanto se rir
porque as pessoas ficam mesmo
partidas
em pequenos bocadinhos

Sexta-feira, Agosto 01, 2008

Os troncos das árvores


Os troncos das árvores doem-me como se fossem os meus ombros
Doem-me as ondas do mar como gargantas de cristal
Dói-me o luar como um pano branco que se rasga.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Sábado, Julho 26, 2008

O que me dói



O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão...


São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.


São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.


Fernando Pessoa, 5-9-1933

Terça-feira, Julho 15, 2008

Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
(...)

Álvaro de Campos

Sexta-feira, Junho 20, 2008

Telhados

Um
estranho fascínio por telhados
(sinto)

Sob os telhados há sotãos, há sonhos, há pessoas
Sobre os telhados há céus, há sonhos, há pássaros

A minha alma de pássaro quer estar em todo o lado

Quinta-feira, Junho 19, 2008

Janela

Chego-me à janela e não há
Janela. Não há
E eu. Então. Contento-me
alegro-me

com a janela aberta dos meus olhos

Sobre o mundo onde sempre cantarão pássaros ao entardecer

Quarta-feira, Junho 18, 2008

Sobre a Casa

Não há senão a casa viva do olhar
à beira do crepúsculo
não há senão
a vereda quase triste das palavras.

Eugénio de Andrade

Terça-feira, Junho 10, 2008

Ausência



AUSÊNCIA

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Segunda-feira, Junho 09, 2008

Açucena

"COMO UMA CRIANÇA antes de a ensinarem a ser grande,
Fui verdadeiro e leal ao que vi e ouvi."

Alberto Caeiro

Sexta-feira, Junho 06, 2008

Memória

Deitaram abaixo esta casa
que era também uma

memória (leve, bonita, próxima)

Às vezes sinto-me cansada
de tentar guardar
todos os despojos
do

mundo

Quinta-feira, Maio 29, 2008

bater-de-asas de andorinhas

Grito
e nem o silêncio me responde.

Para onde foi
O suave ruído

o sublime e mágico

bater-de-asas das andorinhas

Terça-feira, Maio 27, 2008

Renascer



E quero

nascer de novo

começar tudo do princípio

E quero

crescer acreditando nas noites e nas manhãs e nas pessoas e

em mim

e

em ti

e

em nós




Foto retirada da internet

Procura

Procuro e não encontro
a magia
das palavras e das vozes - nossas

Procuro e não encontro
os dias felizes
em que

falávamos a mesma língua
e os mesmos silêncios
e os mesmos sonhos
e os mesmos beijos

Quarta-feira, Maio 21, 2008

Canção desesperada


Nem os sonhos sabem que dizer
a esta rosa de alegria,
aberta nas minhas mãos
ou nos cabelos do dia.

O que sonhei é só água,
água só, roxa de frio.
Nenhuma rosa cabe nesta mágoa.
Dai-me a sombra de um navio.

Eugénio de Andrade

Quarta-feira, Maio 14, 2008

Cantinho do choro e dos silêncios

Um cantinho assim
- feito para chorar e ouvir silêncios -
Quero
um cantinho assim

Segunda-feira, Maio 12, 2008

Janela

E acredito nas janelas

que podem abrir-se a qualquer instante

e acredito nas rosas

que esperam diante da janela

que

poderá nunca se abrir

Domingo, Maio 11, 2008

Tempo

Acredito no tempo - aquele que

apaga lentamente as dores.

- Espero -

Sexta-feira, Maio 09, 2008

Passagem

Às vezes não se vê.

Mas está lá. Há sempre

- uma passagem -

Quinta-feira, Maio 08, 2008

Dualidade

Há dificuldades em todos os caminhos.
Até abrir uma simples porta
Tem um segredo
E pode mudar - o rumo -
de algumas vidds.

Segunda-feira, Maio 05, 2008

Epitáfio

À memória do senhor José Augusto
que apesar de nunca me ter conhecido
escolheu as minhas flores

Terça-feira, Abril 29, 2008

Refúgio

Procuro - também -

Um refúgio (como este).

De onde pudesse fugir a correr quando o silêncio e a memória

não coubessem lá dentro.

Aceitação

Tudo aquilo que nos é dado
acaba por nos ser tirado

resta-nos
beber as gotas de
sonho, de esperança, de alegria

resta-nos (também)
tornar-mo-nos mais humildes
(sempre)
resta-nos aceitar

as muitas estranhas formas de a vida nos mostrar o seu poder

Segunda-feira, Abril 07, 2008

Junquilho

Narciso? Para mim
será

(sempre)

um junquilho de chávena-e-pires.

A memória fica entranhada em nós - e ainda bem -
respira
(até se ouve) dentro do que nos resta quando
até as palavras
nos querem roubar

Quarta-feira, Abril 02, 2008

Silêncio

"O silêncio é doloroso. Mas é no silêncio que as coisas tomam forma, e existem momentos nas nossas vidas em que tudo o que devemos fazer é esperar. Dentro de cada um, no mais profundo do ser, está uma força que vê e escuta aquilo que não podemos ainda perceber. Tudo o que somos hoje nasceu daquele silêncio de ontem."

Kahlil Gibran, "Cartas de Amor do Profeta", p. 57

Terça-feira, Março 25, 2008

sadness

something unknown
deep
strange

a feeling without a name
covering

the soul (maybe blue, maybe green, maybe

no colour at all

Sábado, Março 22, 2008

Camélias

Alimento a estranha convicção

de que ter uma cameleira ao pé de casa

carregada de flores dobradas

é o mesmo que ser feliz

Sexta-feira, Março 21, 2008

Fragilidade

Porque às vezes os dias

se confundem com medos

e

os encontros se confundem
com os mais estranhos

desencontros

Quinta-feira, Março 20, 2008

Primavera

A Primavera chegou, airosa.
Quase me fazendo ter remorsos das saudades

saudades

do Inverno que não tivemos.

Sábado, Março 15, 2008

Paraíso

a árvore-do-paraíso resplandece
adornada pelas flores - tão humildes -
da minha cor preferida - tão simples -


não é bem árvore mas
merece

o nome

Terça-feira, Março 11, 2008

Regressarei

Eu regressarei ao poema como à pátria à casa
Como à antiga infância que perdi por descuido
Para buscar obstinada a substância de tudo
E gritar de paixão sob mil luzes acesas

Sophia de Mello Breyner Andresen
in "O nome das coisas"

Segunda-feira, Março 10, 2008

Revelação

Meu o ofício incerto das palavras
a evocação do tempo
o recurso ao fogo

Meu o provisório olhar
sobre este rio
o fascínio consentido das margens
sitiando a distância

Meus são os dedos que em tumulto
modelam capitéis
de sombras e arestas

Mas oculto na brisa
és Tu quem percorre o poema
despertando as aves
e dando nome aos peixes

José Tolentino Mendonça
in "Os dias contados"

Sexta-feira, Fevereiro 15, 2008

E também porque

Quem não sabe cuidar de um amor
Não merece a alegria

de cuidar de uma flor

Penitência

Abandono o meu Jardim
porque o
amo desmesuradamente
e não suporto
a imperfeição com que lhe toco

Domingo, Fevereiro 10, 2008

Mar, mar e mar

"Tu perguntas e eu não sei,
eu também não sei o que é o mar.

É talvez uma lágrima caída dos meus olhos
ao reler uma carta quando é de noite. (..)"

Eugénio de Andrade

sopro...


(...)
"era o sopro distante das manhãs sobre o mar
e eu disse sentindo os seus passos nos pátios do
coração
é o silêncio é por fim o silêncio
vai desabar."

Eugénio de Andrade

Viagem

"Iremos juntos separados,
as palavras mordidas uma a uma,
taciturnas, cintilantes
- ó meu amor, constelação de bruma,
ombro dos meus braços hesitantes.
(...)"
Eugénio de Andrade

Sábado, Fevereiro 09, 2008

Estrelícia

Sem Palavras!

Domingo, Fevereiro 03, 2008

Cinzento

Às vezes fica tudo cinzento.
Fica cinzento o mar. o Céu. a Alma.
Mas.

Há sempre, algures

uma Cor
que nos salva. o Coração. a Alma.

Quarta-feira, Janeiro 30, 2008

Amarelo

Contra tudo e contra todos

gosto de amarelo.

gosto.

Terça-feira, Janeiro 29, 2008

Entardecer

Anuncia a noite mas

contém as memórias do dia
e
contém a esperança

de um

amanhã

Domingo, Janeiro 27, 2008

Encruzilhadas

A vida está cheia
de caminhos
que

não levam a lugar nenhum.

Sexta-feira, Janeiro 25, 2008

Espera

Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.

Eugénio de Andrade

Segunda-feira, Janeiro 14, 2008

E o mundo inteiro

E o mundo inteiro voa sempre que um homem deseja
Ser maior
Do que as suas asas

Bom Ano a todos.

Quarta-feira, Janeiro 09, 2008

Time in a Bottle


If I could save time in a bottle
The first thing that I'd like to do
Is to save every day
Till eternity passes away
Just to spend them with you

(Time in a Bottle - Jim Croce)

Quinta-feira, Janeiro 03, 2008

Ausências

Fazem-me falta
todos

os que já não posso visitar no Natal.

Paredes com lodo.
Tapassóis apodrecidos.
Cores perdendo a cor. (Há sempre o outro lado, o lado da

dor

dos quartos vazios

Terça-feira, Dezembro 18, 2007

Abundância

Natal é sempre
tempo
de

Abundância.

(Ainda que seja abundância de coisas por fazer - a fase em que estou.)

Domingo, Dezembro 16, 2007

Janela

Há lugares mágicos
que podiam ser

a minha janela

para o mundo.

Segunda-feira, Dezembro 10, 2007

Levada

Por entre as pedras
que o tempo despiu
corre correndo (sempre)

corre a água da Levada.

Alheia a todos os obstáculos, a água segue
o caminho destinado.

Assim deveria ser
a Vida
Levada

O Amor....

"O Amor é a dinâmica do desentendimento..."

Natália Correia
in "A Madona"

Quarta-feira, Dezembro 05, 2007

Confusão

Tão confusa como

a Manhã-de-Páscoa que é

(afinal)

uma flor do Natal

Segunda-feira, Dezembro 03, 2007

Distracção

O único mal de
Olharmos demasiado para o

Céu

é o de nos distrairmos

e nos esquecermos dos lugares
onde
colocamos os pés

Sexta-feira, Novembro 30, 2007

Caminhos (in)seguros

Nem sempre

Existe onde nos agarrarmos
na beira dos caminhos

Às vezes

na beira dos caminhos
só existem precipícios

Terça-feira, Novembro 27, 2007

Seda e espinhos

Quanto mais suave a seda,
Mais afiados os espinhos.

Os dois lados de tudo.

Segunda-feira, Novembro 26, 2007

Sonho

Sonho. Sempre. Sonho. Sempre. Sonho. Sempre. Sonho.

Sábado, Novembro 24, 2007

Sapatinho

Este é o meu primeiro sinal
do Natal

O sapatinho que vai desdobrando as folhas
devagarinho
sob a chuva de Novembro

Quinta-feira, Novembro 22, 2007

Protecção

Tenho a alma dentro de uma flor

chove tanto chove

o mundo começa hoje - em mim


Uma mão invisível - sinto
afaga-me todos os

Sonhos

Quarta-feira, Novembro 21, 2007

Invernos

Resigno-me aos dois Invernos
Ao de lá de fora e ao de cá de dentro

Chegaram em simultâneo.

Terça-feira, Novembro 20, 2007

Quietude

Começa o frio, a chuva cai

Estar quieto é uma bênção

uma semente germinando (sou)

Domingo, Novembro 18, 2007

(Não posso adiar o amor para outro século)


Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio
não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
não posso adiar o coração

antónio ramos rosa

Sábado, Novembro 17, 2007

Morte

Nem todas as plantas

Precisam de ser regadas.

Algumas vivem um instante.

Sexta-feira, Novembro 16, 2007

Ensaião

Após ensaios de voo, decidiu ficar.

Ruínas

Paredes do passado

Janelas sobre o futuro

O presente respirando, parado

Quinta-feira, Novembro 15, 2007

Festa

Obrigada.
Este jardim (imaginário) faz hoje dois anos.

e
As vossas visitas transformaram
todos os dias

numa Festa
maior.

Quarta-feira, Novembro 14, 2007

Eterno



(...)
Eterna é a flor que se fana
se soube florir
é o menino recém-nascido
antes que lhe dêem nome
e lhe comuniquem o sentimento do efêmero
é o gesto de enlaçar e beijar
na visista do amor às almas
eterno é tudo aquilo que vive uma fracção de segundo
mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força o resgata
é minha mãe em mim que a estou pensando
de tanto que a perdi de não pensá-la
é o que se passa em nós se estamos loucos
é tudo que passou, porque passou
é tudo que não passa, pois não houve
eternas as palavras, eternos os pensamentos; e passageiras as obras.
(....)

Carlos Drumond de Andrade,
in "José Fazenddeiro do Ar - Novos poemas"

Terça-feira, Novembro 13, 2007

Corações

Porque o Amor é
o mais

estranho

e o mais bonito
lugar do mundo

Domingo, Novembro 11, 2007

Leveza

Sem peso. Sem espaço. Sem tempo.
Às vezes

os sonhos têm esta aparência.

Sexta-feira, Novembro 09, 2007

Arte

Até o mais
simples
elemento da Natureza
pode fazer da vida
uma

obra de Arte

Segunda-feira, Novembro 05, 2007

Fonte

(Ainda que)
Quase imperceptível

sem palavras
e
esquecida

a fonte continua a jorrar

Domingo, Novembro 04, 2007

Olho

Deixo-me observar
pelo olhar do
tempo.

Não fujo.

Sábado, Novembro 03, 2007

Memória

A criança que eu fui
sentia
um grande fascínio
por esta planta de bolas encarnadas.

Os adultos repetiam e repetiam:
- Não ponhas na boca, tem veneno.
Eu obedecia.
(e dentro de mim)
Agradecia a segurança dos passos guiados.

Sexta-feira, Novembro 02, 2007

Saudades

Hoje
as Saudades
são assim. Iguais a esta árvore florida

em Londres.

Quarta-feira, Outubro 31, 2007

Pão-por-Deus

Ainda bem que os Ouriços
costumam ter castanhas.

Terça-feira, Outubro 23, 2007

Descanso

Um banco.
Árvores.

Silêncio
e
Folhas de Outono espalhadas pelo chão
e
Silêncio. Preciso

de descansar

Domingo, Outubro 21, 2007

Lágrimas

Tão depressa se ri como se chora.
A vida só sabe ser assim.

Sábado, Outubro 20, 2007

Dália tardia

Há sempre quem se atrase.
Como esta dália.

Chegou tarde e rodeada de folhas com cinza.
Mas eu reparei nela.
Gostei dela.

Talvez esta dália tardia
me tenha dado mais alegria
do que todas as outras
nascidas no tempo certo

rodeadas de folhas verdes e brilhantes.
Talvez.

Terça-feira, Outubro 16, 2007

Margarida

Envolta numa solene serenidade
a margarida

observa
guarda
protege

a pequena casa que ainda não tenho
mas que terei não sei quando

Domingo, Outubro 14, 2007

Caracol