Alma de Jardineira

Segunda-feira, Janeiro 16, 2012

o que procuro é um coração pequeno

(....)
O que procuro é um coração pequeno, um animal
perfeito e suave. Um fruto repousado,
uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,
uma pergunta que não ouvi no inanimado,
um arabesco talvez de mágica leveza.
(...)
António Ramos Rosa

Quarta-feira, Dezembro 28, 2011

alguém que apenas nos olhou

Perdemos repentinamente
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos
conservar

mas levamos anos
a esquecer alguém
que apenas nos olhou

José Tolentino Mendonça

Sexta-feira, Dezembro 16, 2011

o sopro húmido dos versos

(...)
Diz: "Não chores o que te espera,
nem desças já pela margem
do rio derradeiro. Respira,
numa breve inspiração, o cheiro
da resina, nos bosques, e
o sopro húmido dos versos."

Como se a ouvíssemos.

Nuno Júdice, in "Meditação sobre Ruínas"

Sexta-feira, Dezembro 09, 2011

No silêncio mais fundo

(....)

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.

José Saramago

Sábado, Novembro 26, 2011

para medir o tempo de uma vida

(...)
Não sei bem acordar vivo destas coisas:
aproveito o ruído do entardecer e grito muito alto
deixo-te um instante só (um instante só)
para fechar os olhos que tanto ardem
ou atiro das margens folhas ao rio
para medir o tempo de uma vida
a naufragar

José Tolentino Mendonça

Terça-feira, Novembro 22, 2011

da fronteira entre o riso e a manhã

(...)
toda a vã tarefa do poeta: nunca
buscar a flor da fronteira entre
o riso e a manhã
exigir o cacto ou a bruma - este
manso sereno construir
nos dedos ou no olhar
da agonia pela noite
ou por este súbito desespero

abrupto: teus passos
na cidade imersa

David Pinto Correia

Sexta-feira, Novembro 18, 2011

as poucas alegrias que tive no mundo

Devo à paisagem as poucas alegrias que tive no mundo. Os homens só me deram tristezas. Ou eu nunca os entendi, ou eles nunca me entenderam. Até os mais próximos, os mais amigos, me cravaram na hora própria um espinho envenenado no coração. A terra, com os seus vestidos e as suas pregas, essa foi sempre generosa. (...)

Miguel Torga, in "Diário (1942)"

Domingo, Outubro 23, 2011

tudo está no seu sítio

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tõa próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um Pomar de espuma.
(....)
António Ramos Rosa

Quinta-feira, Outubro 20, 2011

por tua causa

(...)
Tento acender outras imagens devoradas pelo tempo.
E sei que é por tua causa
que esta noite existe e se repete
a vida inteira.

Joaquim Cardoso Dias
in antologia Tantas Mãos, A Mesma Primaveira

Quinta-feira, Outubro 06, 2011

sucumbido com o dia na palma da mão

(.....) (.... ) Falamos a linguagem
do Inverno com as árvores, lembrando o que é ramo,
o que é caule, até ás raízes da impaciência serena.
Eis tudo o que nos chega prometido nas cores
confundidas no crepúsculo, reflexo supérstite do mundo
sucumbido com o dia na palma da mão.

Paulo Teixeira
in "Inventário e Despedida"

Domingo, Setembro 25, 2011

às vezes a tristeza é uma âncora

(....)
posso dizer-te
às vezes a tristeza é uma benção
considera os braços
às vezes o seu peso é uma âncora
(...)

Carlos Nogueira Fino

Domingo, Setembro 18, 2011

ao vento contínuo de Deus

(...)
Nas vagas recordações
a orla de uma alegria que ninguém viu

os insignificantes flutuam
ao vento contínuo de Deus
(...)
José Tolentino Mendonça
in "A noite abre meus olhos"

Segunda-feira, Agosto 15, 2011

a existência breve das palavras


(...)
Nessa embriaguês do fim
trabalhas, com o futuro de portas abertas,
a existência breve da palavra.
(...)
Paulo Teixeira, in "Inventário e despedida"

Quarta-feira, Julho 27, 2011

este silêncio é uma coisa inteira

Se eu te disser
que este silêncio
é uma coisa inteira
que se sente agarrada ao corpo
como um braço

que é talvez luz
ou a cor longa do céu
quando leva até longe o azul
a fita grácil que guardei da infância

entenderás
que só deste modo se vê o indisível
(...)

Irene Lucília Andrade

Domingo, Julho 10, 2011

não seremos quem somos

(....)
e ainda que um homem
nos queira fazer à sua imagem
não seremos quem somos
sem os Deuses

inevitavelmente.

Irene Lucília Andrade

Sexta-feira, Julho 01, 2011

como as casas que já foram habitadas

(...)
A estas horas os encontros estão vazios
como as casas que já foram habitadas.
(...)

Irene Lucília Andrade

Domingo, Junho 19, 2011

o coração das ilhas

(...)
vasto é o mundo
procuro sempre o coração das ilhas
na lonjura repleta dos meus olhos

Irene Lucília Andrade

Sábado, Maio 21, 2011

as divindades do bosque

(....)
Mas o vento é um invasor impiedoso
destrona as divindades do bosque

José Tolentino Mendonça

Terça-feira, Maio 10, 2011

as coisas findas


Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade

Domingo, Maio 08, 2011

a eternidade existe

devagar, o tempo transforma tudo em tempo
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo

os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo

por si só, o tempo não é nada
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.

(....)

José Luís Peixoto

Quinta-feira, Maio 05, 2011

à procura de um país de árvores

Ainda espero o amor
como no ringue o lutador caído
espera a sala vazia
(...)
Não discuto o que fizeram de nós estes anos
a verdade é de outra importância
mas hoje anuncio que me despeço
à procura de um país de árvores
(...)

José Tolentino Mendonça

Terça-feira, Maio 03, 2011

a esperança


Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.


Carlos Drumond de Andrade

Domingo, Abril 10, 2011

nos teus olhos

O domingo era uma coisa pequena.
Uma coisa tão pequena
que cabia inteirinha nos teus olhos.

Eugénio de Andrade

Quarta-feira, Abril 06, 2011

o meu nome de todas as maneiras

é claro que sei dizer palavras calmas
e amar devagar os que chegam a meu lado
e recordam o meu nome de todas as maneiras
com que ao redor da vida o foram construindo

Alice Vieira

Quinta-feira, Março 17, 2011

também é ser, deixar de ser assim

Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
(...)
Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que me vão lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

Cecília Meireles

Sexta-feira, Março 11, 2011

onde uma chama comece a florir o espírito


(...)
Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
à tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
(...)
Herberto Helder

Sábado, Março 05, 2011

Tudo é ilusão.


(...)
Põe a tua mão
sobre o meu cabelo...
Tudo é ilusão.
Sonhar é sabê-lo....

Fernando Pessoa

Domingo, Fevereiro 13, 2011

náufrago do tempo incerto

Pela dor amassada em lágrimas
nasces devagar asa desfolhada
no recanto letárgico do sono

ninguém te nomeia és tu
náufrago do tempo incerto e amargo
amarrado à tua ilha branca

abres as mão à madrugada
o tacto imerso da luz desce lento
o contorno das casas ritos gestos e gritos
habitam devagar a tua voz

cresces suave contra a parede
de violência cresces inteiro
contra o instinto da morte

A. J. Vieira de Freitas

Quarta-feira, Fevereiro 09, 2011

todo o mistério e toda a sapiência

O círculo é a forma eleita:
É ovo, é zero,
É ciclo, é ciência.
Nele se inclui todo o mistério
E toda a sapiência.

É o que está feito,
Perfeito e determinado,
É o que principia
No que está acabado.

Ana Hatherly

Terça-feira, Janeiro 18, 2011

quem faz um poema abre uma janela




Quem faz um poema abre uma janela.

Respira, tu que estás numa cela abafada

esse ar que entra por ela.

Por isso é que os poemas têm ritmo

- para que possas profundamente respirar.

Quem faz um poema salva um afogado.


Mário Quintana

Sexta-feira, Janeiro 07, 2011

porque sempre haveria tempo

(...)
se espelhasse na sombra das tardes
a alegria necessária à inquietude
dos pássaros

então deixava-me ficar
ao sabor das alvoradas

porque sempre haveria tempo
sempre haveria
amor
e vento

José António Gonçalves

Segunda-feira, Novembro 29, 2010

moviéndose entre espejos

(...)
Oh triste soledad, la del engaño
de creerse en humana compañía
moviéndose entre espejos, ermitaño.

He ido muriendo hasta llegar al día
en que espejo de espejos, soy me extraño
a mí mismo y descubro no vivía

Miguel de Unamuno

Quarta-feira, Novembro 24, 2010

para que servem meus braços


(...)
Luz de Outono, fria, fria...
Hora inútil e sombria
de abandono.
Não sei se é tédio, sono,
silêncio ou nostalgia.

Interminável dia
de indizíveis cansaços,
de funda melancolia.
Sem rumo para os meus passos,
para que servem meus braços,
nesta hora fria, fria?

Fernanda de Castro, in "Trinta e Nove Poemas"

Sexta-feira, Novembro 19, 2010

e tudo parecia imenso

(...)
Era uma haste inclinada
sob o capricho do vento.
Era a minh'alma, dobrada,
dentro do teu pensamento.
Era uma igreja assaltada,
mas que cheirava a incenso.
Era afinal quase nada,
e tudo parecia imenso!

(...)

David Mourão-Ferreira

Segunda-feira, Novembro 15, 2010

hormigas de espanto y licor de lirios

(...)

Amigo,

despierta, que los montes todavía no respiran

Y las hierbas de mi corazón están en otro sitio.

No importa que estés lleno de agua de mar.

Yo amé mucho tiempo a un niño

que tenía cien años dentro de un cuchillo.


Despierta. Calla. Escucha. Incorpórate un poco.

El aullido

es una larga lengua morada que deja

hormigas de espanto y licor de lirios.

Ya viene hacia la roca. ¡No alargues tus raíces!

Se acerca. Gime. No solloces en sueños, amigo.

(...)

Federico García Llorca


Quarta-feira, Novembro 10, 2010

guardar certos vermelhos


(...)

a noite cai mais cedo e apetece

guardar certos vermelhos da folhagem

e amarelos e castanhos nas ladeiras

de setembro. (...)


Vasco Graça Moura

Sábado, Novembro 06, 2010

porque tudo é um mistério


importa que o rosto se registe
porque tudo é um mistério
os olhos os caminhos
a gravidade do coração
o alfabeto com que a lembrança se escreve
todo o percurso é uma dor
e um lampejo de júbilo

Irene Lucília Andrade

Quinta-feira, Novembro 04, 2010

breve alegria e longas odisseias


A lua ignora que é tranquila e clara
E não pode sequer saber que é lua;
A areia, que é a areia. Não há uma
Coisa que saiba que sua forma é rara.
As peças de marfim são tão alheias
Ao abstracto xadrez como essa mão
Que as rege. Talvez o destino humano,
Breve alegria e longas odisseias,
Seja instrumento de Outro. Ignoramos;
Dar-lhe o nome de Deus não nos conforta.
Em vão também o medo, a angústia, a absorta
E truncada oração que iniciamos.
Que arco terá então lançado a seta
Que eu sou? Que cume pode ser a meta?

Jorge Luis Borges, in "A Rosa Profunda"

Domingo, Outubro 31, 2010

ferramentas despropositadas



como se pegasse em ferramentas
despropositadas: a charrua
para arrancar uma flor,
o martelo para ver mais perto.

Gonçalo M. Tavares, in "Uma Viagem à Índia"

Sábado, Outubro 30, 2010

o que não daria eu pela memória


(...)
O que não daria eu pela memória
De que tu me dissesses que me amavas
E de não ter dormido até à aurora,
Dissoluto e feliz.

Jorge Luis Borges, in "A Moeda de Ferro"

Segunda-feira, Outubro 25, 2010

fora de ti há o mundo




Uma árvore está quieta,
murcha, desprezada.
Mas se o poeta a levanta pelos cabelos
e lhe sopra os dedos,
ela volta a empertigar-se, renovada.
E tu, que não sabias o segredo,
perdes a vaidade.
Fora de ti há o mundo
e nele há tudo
que em ti não cabe.

Homem, até o barro tem poesia!
Olha as coisas com humildade.

Fernando Namora, in "Mar de Sargaços

Sexta-feira, Outubro 22, 2010

a loucura das praias no espaço

(...)
O amor acende no espelho um pouco de mentira
como a loucura das praias no espaço
da sua transparência.
(...)

A. J. Vieira de Freitas

Segunda-feira, Outubro 18, 2010

tu que habitas a montanha suspensa


tu que habitas a montanha suspensa
e soltas os cavalos que trazem a alvorada
inclina a fronte louca crivada de planetas
transmuda a água em fogo
oferece-nos o lume
derrama a névoa espessa

e dá-me o dom do sono

Madalena Férin


Sábado, Outubro 09, 2010

nem sequer sou poeira

(...)
O meu rosto (que não vi)
Não projecta uma cara em nenhum espelho.
Nem sequer sou poeira. Sou um sonho

Jorge Luis Borges, in "História da Noite"

Terça-feira, Setembro 28, 2010

o meu alimento é todas as coisas

(...)
Tenho de louvar e de agradecer cada instante do tempo.
O meu alimento é todas as coisas.
O peso exacto do universo, a humilhação, o júbilo.
Tenho de justificar o que me fere.
Não importa a minha felicidade ou infelicidade.
Sou o poeta.

Jorge Luis Borges, in "A Cifra"

Domingo, Setembro 26, 2010

não choro eu

Eu, quando choro,
não choro eu.
Chora aquilo que nos homens
em todo o tempo sofreu.
As lágrimas são as minhas
mas o choro não é meu.

António Gedeão

Sexta-feira, Setembro 24, 2010

é Deus que fala num idioma cintilante

Se o vento da manhã sopra suave
rente ao ouvido do homem
É Deus que fala num idioma cintilante
por dentro do coração do homem

Assim o pensa a ideia
sobre a forma de tantas coisas simples
como o frio da geada tão perto de casa
tocando a minha cara

Rui Machado

Quarta-feira, Setembro 22, 2010

de dádivas encheram o Outono


Antes de amar-te, amor, nada era meu

(....)

Tudo estava vazio, morto e mudo,
Caído, abandonado e decaído,
Tudo era inalienavelmente alheio,
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o outono.


Pablo Neruda

Terça-feira, Setembro 21, 2010

estrelas fixas decidem uma vida

(...)

Anos depois, na estrada,
Encontro

Essas palavras secas e sem rédeas,
Bater de cascos incansável.
Enquanto
Do fundo do poço, estrelas fixas
Decidem uma vida.

Sylvia Plath
(tradução de Ana Cristina Cesar)

Segunda-feira, Setembro 20, 2010

um destino de eremita

(....) O poeta
tem um destino de eremita. Cultiva laranjas,
maçãs e pêros. Depois colhe romãs e cerejas.

José António Gonçalves